O silêncio era sólido.
O som limpo, inteiro,
caía sobre todos
como se nada pudesse quebrá-lo.
Até que quebrou.
Um toque barato,
rasgando o ar como faca cega.
Ele ouviu.
Engoliu o instante.
E, sem dizer nada,
aceitou a ofensa no próprio instrumento:
tocou o intruso,
nota por nota,
como quem segura
a fronteira do próprio mundo
com as mãos atadas.
A plateia prendeu o fôlego.
Ele não.
Veio então o ataque:
veloz, descontrolado, frenético —
a devolução do golpe
em forma de música.
Era raiva contida,
pulso fora do eixo,
um corpo tentando lembrar que não é servo
do descuido alheio.
Depois, o retorno.
Lento.
Comedido.
Pesado.
A última melodia caiu densa,
carregada do que não se diz.
Respeito recuperado,
mas não sem marcas.
E no eco final,
ficou claro:
o silêncio nunca volta igual
depois de ser ferido.
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Autor:
Noétrico (
Offline) - Publicado: 28 de fevereiro de 2026 13:56
- Comentário do autor sobre o poema: Um vídeo na rede social me inspirou a isto e este poema me fez querer publicar os demais. Posso dizer que ele é a chave de conexão entre nossas realidades. Para mim o poema, nem é sobre música, é sobre manter a própria integridade quando algo íntimo é violado, é transformar a ruptura em expressão, sabendo que depois de violado, o que volta já carrega marcas, que jamasi será o mesmo... Por isso é importsante o cuidado de cada ação.
- Categoria: Conto
- Visualizações: 5
- Usuários favoritos deste poema: Drica

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