O silêncio era sólido.
O som limpo, inteiro,
caía sobre todos
como se nada pudesse quebrá-lo.
Até que quebrou.
Um toque barato,
rasgando o ar como faca cega.
Ele ouviu.
Engoliu o instante.
E, sem dizer nada,
aceitou a ofensa no próprio instrumento:
tocou o intruso,
nota por nota,
como quem segura
a fronteira do próprio mundo
com as mãos atadas.
A plateia prendeu o fôlego.
Ele não.
Veio então o ataque:
veloz, descontrolado, frenético —
a devolução do golpe
em forma de música.
Era raiva contida,
pulso fora do eixo,
um corpo tentando lembrar que não é servo
do descuido alheio.
Depois, o retorno.
Lento.
Comedido.
Pesado.
A última melodia caiu densa,
carregada do que não se diz.
Respeito recuperado,
mas não sem marcas.
E no eco final,
ficou claro:
o silêncio nunca volta igual
depois de ser ferido.