Antes que a História aprendesse a pronunciá-las
sem tropeçar no próprio orgulho,
antes que o mármore ousasse guardar
a curva viva de seus rostos,
elas sabiam que eram capazes de tudo.
Eram nascente sob a terra endurecida,
eram raiz que não pedia licença à pedra,
eram claridade germinando
no fundo das eras mais turvas.
Não esperaram convite,
não aguardaram altar.
Ergueram-se como quem acende um sol
dentro do próprio peito
e caminha,
mesmo quando o mundo
ainda estava escuro demais
para reconhecer
a luz.
Quando a ignorância vestia armadura,
Hipátia de Alexandria ensinava sob céu de censura,
provando que pensar é um ato de chama
que nem a violência desprograma.
Safo de Lesbos fez do amor linguagem precisa,
transformou desejo em arquitetura concisa,
e mostrou que sentir profundamente
é também raciocinar ardentemente.
Simone de Beauvoir escreveu que ninguém nasce destino,
que a vida é construção, não desígnio divino,
e abriu frestas onde antes havia parede,
ensinando que liberdade também tem sede.
Hannah Arendt viu no silêncio um perigo banal,
desnudou a face comum do mal,
lembrando que pensar é resistência
quando o mundo prefere inconsciência.
Marie Curie tocou a matéria invisível,
aceitou o risco do impossível,
fez do laboratório um território ardente
onde ciência e coragem são a mesma corrente.
Ada Lovelace sonhou máquinas antes do tempo,
viu poesia no cálculo lento,
e plantou nos códigos da humanidade
a semente da criatividade.
Frida Kahlo pintou a própria dor com flores abertas,
fez da ferida janela desperta,
provando que o corpo que sofre também cria
uma estética de resistência e alquimia.
Virginia Woolf pediu um quarto, mas construiu um universo,
onde a mulher deixou de ser verso disperso
e tornou-se centro, autora, direção,
pensamento com pulsação.
E no Brasil, a terra de sol e de luta,
Nísia Floresta escreveu quando quase ninguém escutava,
defendeu educação como revolução serena
num tempo que negava voz feminina plena.
Bertha Lutz fez do voto uma causa viva,
transformou ciência em política ativa,
lembrando que direito não é concessão,
é construção.
Carolina Maria de Jesus escreveu a fome em páginas cruas,
fez literatura nascer das ruas,
e provou que talento não pede sobrenome,
ele floresce mesmo quando o mundo consome.
E em silêncio febril, quase vertigem,
Clarice Lispector escreveu como quem toca a origem,
escavou o instante até ele sangrar sentido,
fez do cotidiano um enigma expandido.
Com palavras que respiram por dentro,
transformou o banal em centro,
e ensinou que a alma feminina não cabe em definição,
ela é pergunta em combustão.
Dandara dos Palmares lutou onde a liberdade era proibida,
carregou no peito a palavra vida,
ensinando que existir já é resistência
quando o sistema inteiro nega a essência.
E há tantas, tantas, mas tantas,
que nunca entraram nos livros formais,
parteiras, professoras, cientistas rurais,
mulheres que curaram com mãos firmes,
que pensaram em silêncio entre rotinas e crimes
contra seus sonhos e sua lucidez.
Chamaram de loucura o que era intuição,
de exagero o que era percepção,
de rebeldia o que era visão ampliada,
mas nenhuma mente desperta volta a ser domesticada.
Hoje seus nomes brilham como faróis,
mas o preço ficou guardado entre nós,
como os amores interrompidos,
fé questionada,
talentos roubados,
coragem julgada.
Ainda assim elas criaram.
Amaram.
Descobriram.
Ensinaram.
Porque ser mulher nunca foi apenas existir,
foi insistir.
E quando uma mulher hoje pensa sem pedir permissão,
há uma constelação inteira em vibração,
uma herança invisível sustentando sua voz
como se o novo ciclo começasse, outra vez, em nós.
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Autor:
Amanda S. Moraes (
Offline) - Publicado: 28 de fevereiro de 2026 10:19
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 1

Offline)
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