Amanda S. Moraes

Constelação de flores pensantes

Sempre admirei histórias sobre mulheres corajosas.

Eram nascentes sob a terra endurecida,

eram raizes que não pediam licença à pedra,

eram claridade germinando

no fundo das eras mais turvas.

 

Não esperaram convite,

não aguardaram altar.

Ergueram-se como quem acende um sol

dentro do próprio peito,

 caminhando,

mesmo quando o mundo

ainda estava escuro demais

para reconhecer

a luz.

Quando a ignorância vestia armadura,

Hipátia de Alexandria ensinava sob céu de censura,

provando que pensar é um ato de chama

que nem a violência desprograma.

 

Safo de Lesbos fez do amor linguagem precisa,

transformou desejo em arquitetura concisa,

e mostrou que sentir profundamente

é também raciocinar ardentemente.

 

Simone de Beauvoir escreveu que ninguém nasce destino,

que a vida é construção, não desígnio divino,

e abriu frestas onde antes havia parede,

ensinando que liberdade também tem sede.

 

Hannah Arendt viu no silêncio um perigo banal,

desnudou a face comum do mal,

lembrando que pensar é resistência

quando o mundo prefere inconsciência.

 

Marie Curie tocou a matéria invisível,

aceitou o risco do impossível,

fez do laboratório um território ardente

onde ciência e coragem são a mesma corrente.

 

Ada Lovelace sonhou máquinas antes do tempo,

viu poesia no cálculo lento,

e plantou nos códigos da humanidade

a semente da criatividade.

 

Frida Kahlo pintou a própria dor com flores abertas,

fez da ferida janela desperta,

provando que o corpo que sofre também cria

uma estética de resistência e alquimia.

 

Virginia Woolf pediu um quarto, mas construiu um universo,

onde a mulher deixou de ser verso disperso

e tornou-se centro, autora, direção,

pensamento com pulsação.

 

E no Brasil, a terra de sol e de luta,

Nísia Floresta escreveu quando quase ninguém escutava,

defendeu educação como revolução serena

num tempo que negava voz feminina plena.

 

Bertha Lutz fez do voto uma causa viva,

transformou ciência em política ativa,

lembrando que direito não é concessão,

é construção.

 

Carolina Maria de Jesus escreveu a fome em páginas cruas,

fez literatura nascer das ruas,

e provou que talento não pede sobrenome,

ele floresce mesmo quando o mundo consome.

 

E em silêncio febril, quase vertigem,

Clarice Lispector escreveu como quem toca a origem,

escavou o instante até ele sangrar sentido,

fez do cotidiano um enigma expandido.

 

Com palavras que respiram por dentro,

transformou o banal em centro,

e ensinou que a alma feminina não cabe em definição,

ela é pergunta em combustão.

 

Dandara dos Palmares lutou onde a liberdade era proibida,

carregou no peito a palavra vida,

ensinando que existir já é resistência

quando o sistema inteiro nega a essência.

 

E há tantas, tantas, mas tantas,

que nunca entraram nos livros formais, 

parteiras, professoras, cientistas rurais,

mulheres que curaram com mãos firmes,

que pensaram em silêncio entre rotinas e crimes

contra seus sonhos e sua lucidez.

 

Chamaram de loucura o que era intuição,

de exagero o que era percepção,

de rebeldia o que era visão ampliada,

mas nenhuma mente desperta volta a ser domesticada.

 

Hoje seus nomes brilham como faróis,

mas o preço ficou guardado entre nós,

como os amores interrompidos,

fé questionada,

talentos roubados,

coragem julgada.

 

Ainda assim elas criaram.

Amaram.

Descobriram.

Ensinaram.

 

Porque ser mulher nunca foi apenas existir,

foi insistir.

 

E quando uma mulher hoje pensa sem pedir permissão,

há uma constelação inteira em vibração,

uma herança invisível sustentando sua voz

como se o novo ciclo começasse, outra vez, em nós.