Sentir prevê as feridas

Brunna Keila

Sentir é um dom perigoso.

É como andar descalça em estrada de pedra:

a gente sabe que vai machucar,

mas mesmo assim prefere o chão verdadeiro

do que a proteção fria dos sapatos.

Quem sente demais

prevê as feridas antes mesmo que elas aconteçam.

O coração é vidente —

ele pressente a ausência no meio do abraço,

a despedida escondida dentro do “fica”,

o silêncio crescendo no meio da conversa.

Sentir prevê feridas

porque amar é sempre um risco anunciado.

Não existe amor sem a possibilidade da perda,

não existe entrega sem a chance da queda.

Mas ainda assim,

há quem escolha sentir.

Há quem prefira o rasgo à indiferença,

a lágrima à dormência,

a cicatriz à ausência de história.

Porque pior que a ferida

é a anestesia da alma.

E se sentir prevê feridas,

também prevê intensidade.

Prevê memórias que não se apagam,

risos que ecoam depois que o som acaba,

e aquele tipo de amor

que, mesmo quando dói,

prova que estivemos vivos.

Talvez o segredo não seja evitar a dor,

mas entender que cada cicatriz

é a assinatura de algo que valeu a pena sentir.

E no fim,

só se fere quem teve coragem

de não passar pela vida ileso.

  • Autor: Brunna Keila (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 26 de fevereiro de 2026 18:30
  • Categoria: Triste
  • Visualizações: 2
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