Sentir é um dom perigoso.
É como andar descalça em estrada de pedra:
a gente sabe que vai machucar,
mas mesmo assim prefere o chão verdadeiro
do que a proteção fria dos sapatos.
Quem sente demais
prevê as feridas antes mesmo que elas aconteçam.
O coração é vidente —
ele pressente a ausência no meio do abraço,
a despedida escondida dentro do “fica”,
o silêncio crescendo no meio da conversa.
Sentir prevê feridas
porque amar é sempre um risco anunciado.
Não existe amor sem a possibilidade da perda,
não existe entrega sem a chance da queda.
Mas ainda assim,
há quem escolha sentir.
Há quem prefira o rasgo à indiferença,
a lágrima à dormência,
a cicatriz à ausência de história.
Porque pior que a ferida
é a anestesia da alma.
E se sentir prevê feridas,
também prevê intensidade.
Prevê memórias que não se apagam,
risos que ecoam depois que o som acaba,
e aquele tipo de amor
que, mesmo quando dói,
prova que estivemos vivos.
Talvez o segredo não seja evitar a dor,
mas entender que cada cicatriz
é a assinatura de algo que valeu a pena sentir.
E no fim,
só se fere quem teve coragem
de não passar pela vida ileso.