Luto

Bento

Sou um solo seco

Enterrei amores

Sob sete palmos

Não escolhi caixão

 

Caíram por si

Adoecidos, exauridos

 

Chamei os vermes

Que nada fizeram

Nem abutres vieram

Queixaram-se:

"Cova inóspita!"

 

O sol a pino

O ventro frio

Os restos mortais 

Cobriam-me as entranhas

 

Entre morrer e me defazer

Me desfiz

Sol a sol, vento a vento

Na intempérie

Cobri as carniças

 

Movi-me lentamente

Sobre o que me adoecia

 

A chuva caiu 

E seco que sou

Tudo encharcou

 Levando restos à superfície

 

Quando o sol voltou

Nenhuma cova existia

 

Recomecei

Sol a sol, vento a vento

E a cada nova chuva

Fica uma cova mais funda

 

Há de chegar o dia 

Da chuva que inunda

Mas traz à tona

Somente a vida

  • Autor: Bento Cavalcante (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 26 de fevereiro de 2026 15:24
  • Categoria: Gótico
  • Visualizações: 3
Comentários +

Comentários1

  • Shmuel

    Muito bom!

    .."Entre morrer e me defazer
    Me desfiz
    Sol a sol, vento a vento"...

    • Bento

      Muito obrigado 🙂
      Que bom que gostou!



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