Sou um solo seco
Enterrei amores
Sob sete palmos
Não escolhi caixão
Caíram por si
Adoecidos, exauridos
Chamei os vermes
Que nada fizeram
Nem abutres vieram
Queixaram-se:
\"Cova inóspita!\"
O sol a pino
O ventro frio
Os restos mortais
Cobriam-me as entranhas
Entre morrer e me defazer
Me desfiz
Sol a sol, vento a vento
Na intempérie
Cobri as carniças
Movi-me lentamente
Sobre o que me adoecia
A chuva caiu
E seco que sou
Tudo encharcou
Levando restos à superfície
Quando o sol voltou
Nenhuma cova existia
Recomecei
Sol a sol, vento a vento
E a cada nova chuva
Fica uma cova mais funda
Há de chegar o dia
Da chuva que inunda
Mas traz à tona
Somente a vida