A revolta da estrada

Joaquim Saial

 

A estrada estava farta de ser pisada

por camiões,

por automóveis,

por motociclos,

até pelas lagartas dos carros de combate

e pelas das couves.

 

Também pelas pessoas:

os soldados em treino,

os peregrinos,

os atletas das maratonas

e os de domingo.

E aquelas que apenas iam para as casas, montes e hortas

que a ladeavam.

 

A estrada estava mesmo farta de ser pisada.

 

Um dia, revoltou-se,

abriu-se,

fendeu-se,

rasgou-se,

encheu-se de fissuras e buracos,

o alcatrão saltou,

a gravilha desprendeu-se,

a areia lançou pó nos ares.

 

A estrada ficou intransitável

e em cada cavidade dela

soltava-se uma gargalhada.

 

Do livro "Poemas para a hora de Ponta", ed. Cordel de Prata, Lisboa, 2019

  • Autor: Joaquim Saial (Offline Offline)
  • Publicado: 25 de fevereiro de 2026 13:29
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 4
  • Em coleções: Estrada.


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