A estrada estava farta de ser pisada
por camiões,
por automóveis,
por motociclos,
até pelas lagartas dos carros de combate
e pelas das couves.
Também pelas pessoas:
os soldados em treino,
os peregrinos,
os atletas das maratonas
e os de domingo.
E aquelas que apenas iam para as casas, montes e hortas
que a ladeavam.
A estrada estava mesmo farta de ser pisada.
Um dia, revoltou-se,
abriu-se,
fendeu-se,
rasgou-se,
encheu-se de fissuras e buracos,
o alcatrão saltou,
a gravilha desprendeu-se,
a areia lançou pó nos ares.
A estrada ficou intransitável
e em cada cavidade dela
soltava-se uma gargalhada.
Do livro \"Poemas para a hora de Ponta\", ed. Cordel de Prata, Lisboa, 2019