Joaquim Saial

A revolta da estrada

 

A estrada estava farta de ser pisada

por camiões,

por automóveis,

por motociclos,

até pelas lagartas dos carros de combate

e pelas das couves.

 

Também pelas pessoas:

os soldados em treino,

os peregrinos,

os atletas das maratonas

e os de domingo.

E aquelas que apenas iam para as casas, montes e hortas

que a ladeavam.

 

A estrada estava mesmo farta de ser pisada.

 

Um dia, revoltou-se,

abriu-se,

fendeu-se,

rasgou-se,

encheu-se de fissuras e buracos,

o alcatrão saltou,

a gravilha desprendeu-se,

a areia lançou pó nos ares.

 

A estrada ficou intransitável

e em cada cavidade dela

soltava-se uma gargalhada.

 

Do livro \"Poemas para a hora de Ponta\", ed. Cordel de Prata, Lisboa, 2019