Tinha um mofo crescendo no canto do quarto
enquanto eu lustro aquela terça-feira de anos atrás.
É vício, eu sei.
Essa dopamina de segunda mão,
esse "quem sabe" que eu batizei de destino
só para não ter que admitir que era pura estagnação.
Eu tirei meu RG em nome da espera.
Virei a nota de rodapé de uma história que eu mesmo inventei,
alimentava o estômago com as migalhas
de um "bom dia" que já prescreveu.
É que idolatrar dava menos trabalho que viver.
O altar é silencioso, o santo não exige nada,
e enquanto eu rezava para a sua possibilidade,
eu não precisava lidar com o vazio da minha própria janta.
A vida real é um ônibus que passava na janela
enquanto eu seguia aqui, congelada,
transformando a sua ausência na minha única identidade.
Esqueci de mim por um certo tempo,
porque era mais confortável ser a vigia da tua promessa
do que a dona do meu próprio presente.
Sobrou o jejum.
Sobrou a abstinência de um abraço que nunca foi meu,
e essa mania feia de achar que o amor
é o que acontece enquanto a gente para de respirar e aquele frio na barriga só de pensar...
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Autor:
Anna Gonçalves (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 22 de fevereiro de 2026 01:46
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 2

Offline)
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