Tinha um mofo crescendo no canto do quarto
enquanto eu lustro aquela terça-feira de anos atrás.
É vício, eu sei.
Essa dopamina de segunda mão,
esse \"quem sabe\" que eu batizei de destino
só para não ter que admitir que era pura estagnação.
Eu tirei meu RG em nome da espera.
Virei a nota de rodapé de uma história que eu mesmo inventei,
alimentava o estômago com as migalhas
de um \"bom dia\" que já prescreveu.
É que idolatrar dava menos trabalho que viver.
O altar é silencioso, o santo não exige nada,
e enquanto eu rezava para a sua possibilidade,
eu não precisava lidar com o vazio da minha própria janta.
A vida real é um ônibus que passa na janela
enquanto eu seguia aqui, congelada naquele nosso tempo,
transformava a sua ausência e uma pequena esperança de ação sua na minha única identidade.
Esqueci de mim por um certo tempo,
porque era mais confortável ser a vigia 24 horas da tua promessa
do que a dona do meu próprio presente.
E quando quis constatar pela última vez se era isso mesmo
[Acabar naquele momento e seguirmos em frente, ou darmos uma chance pra ver o que tinha para nós no futuro a frente]
Mas única resposta que eu tive foi \" hoje não dá\" e o silêncio ensurdecedor...
[Bem aqui ]
Sobrou o jejum.
Sobrou a abstinência de um abraço que já foi meu,
e essa mania feia e patética de achar que o amor
é o que acontece enquanto a gente para de respirar e sente aquele frio na barriga só de pensar... E o coração começa a acelerar só de lembrar e desejar