Amei o que não me pertencia
amei porque era teu.
Adotei teus afetos
para caber ao teu lado
como sombra que não reclama do chão.
— Eu odeio o mundo — você disse.
E eu, tão disposta a ser tua extensão,
odiei-o contigo.
Não porque soubesse odiar,
mas porque queria caber na mesma frase que você.
Passei a ver o mundo como ameaça,
como se cada olhar que te tocasse
fosse um roubo silencioso,
como se o ar ao teu redor
me devesse explicações.
Te entreguei tudo.
Até meu vazio — grande demais,
único demais,
segredo demais.
Você abriu a porta de um quarto
e disse:
— Aqui é tua casa.
E eu, faminta de pertencimento,
transformei-o em lar.
Pendurei certezas nas paredes,
arrumei meus silêncios nas gavetas,
aprendi o formato exato da tua ausência.
Mas você sempre saía
para o mundo que eu havia aprendido a rejeitar por você.
E eu ficava à janela,
com o rosto encostado no vidro frio,
vendo teus passos desaparecerem na rua
como se fossem menos meus a cada dia.
Quis que eles hesitassem lá fora.
Que errassem o caminho.
Que só soubessem voltar até mim.
Você me ensinou assim:
viver por você.
E foi ali, nesse intervalo entre tua ida e teu retorno,
que algo começou a crescer.
Um silêncio mais espesso.
O meu antigo vazio
aquele que eu conhecia pelo nome
foi sendo empurrado para um canto,
como móvel esquecido.
No lugar dele,
instalou-se outro —
frio, impessoal,
como um quarto alugado por alguém
que nunca pretende ficar.
E então entendi, tarde demais:
eu não havia abandonado o mundo por amor.
Eu havia me abandonado.
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Autor:
333 (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 20 de fevereiro de 2026 15:00
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 3
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Offline)
Comentários1
Lindaaaaaaaaaaaaaaa.....
Parabéns...
Tirei o meu chapéu...
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