Isabella Vitória

EU NÃO APRENDI AMAR

Amei o que não me pertencia 
amei porque era teu.
Adotei teus afetos 
para caber ao teu lado
como sombra que não reclama do chão.

— Eu odeio o mundo — você disse.
E eu, tão disposta a ser tua extensão,
odiei-o contigo.
Não porque soubesse odiar,
mas porque queria caber na mesma frase que você.

Passei a ver o mundo como ameaça,
como se cada olhar que te tocasse
fosse um roubo silencioso,
como se o ar ao teu redor
me devesse explicações.

Te entreguei tudo.
Até meu vazio — grande demais,
único demais,
segredo demais.

Você abriu a porta de um quarto
e disse:
— Aqui é tua casa.

E eu, faminta de pertencimento,
transformei-o em lar.
Pendurei certezas nas paredes,
arrumei meus silêncios nas gavetas,
aprendi o formato exato da tua ausência.

Mas você sempre saía
para o mundo que eu havia aprendido a rejeitar por você.
E eu ficava à janela,
com o rosto encostado no vidro frio,
vendo teus passos desaparecerem na rua
como se fossem menos meus a cada dia.

Quis que eles hesitassem lá fora.
Que errassem o caminho.
Que só soubessem voltar até mim.

Você me ensinou assim:
viver por você.

E foi ali, nesse intervalo entre tua ida e teu retorno,
que algo começou a crescer.
Um silêncio mais espesso.

O meu antigo vazio 
aquele que eu conhecia pelo nome 
foi sendo empurrado para um canto,
como móvel esquecido.

No lugar dele,
instalou-se outro —
frio, impessoal,
como um quarto alugado por alguém
que nunca pretende ficar.

E então entendi, tarde demais:
eu não havia abandonado o mundo por amor.

Eu havia me abandonado.