Dor — Exercício de Densidade
A dor não me anuncia chegada.
Ela entra.
Ocupa.
Pressiona por dentro até que tudo em mim
aprenda a ficar.
No início, resisto.
O corpo cede, a mente tenta escapar,
o mundo perde volume.
Sobra apenas o essencial:
eu, diante do que sinto,
sem defesa,
sem narrativa.
Sinto medo.
Sinto cansaço.
Sinto a vertigem de não saber.
Cada tentativa de controle falha,
e a dor, paciente,
retira o excesso
até restar o centro.
No meio, algo se ajusta.
A dor não grita —
ela exige sustentação.
Testa a estrutura,
derruba o que não aguenta
e preserva o que sustenta.
O tempo se adensa.
O agora ganha corpo.
Não há discurso possível,
apenas presença.
Aprendo a permanecer
sem fugir,
sem reagir.
É ali que mudo o gesto.
Já não tento vencer o peso.
Aprendo a criar de outro modo:
escutando.
Cocriando com aquilo que resiste.
No fim, compreendo.
A dor não veio para destruir,
mas para alinhar.
Não pediu consolo,
pediu verdade.
E quando nada mais cai,
quando não há o que retirar,
permaneço inteiro.
Não porque a dor passou —
mas porque eu fiquei.
-
Autor:
Gilberto Lima (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 20 de fevereiro de 2026 09:08
- Comentário do autor sobre o poema: Dor — Exercício de Densidade parte de uma constatação simples: a dor é uma experiência inevitável, mas o modo como nos relacionamos com ela é escolha. Não se trata de glorificar o sofrimento, tampouco de negá-lo. Trata-se de reconhecê-lo como força que reorganiza estruturas internas. A dor revela o que sustenta quando as camadas externas cedem. Neste texto, proponho uma inversão cultural: em vez de fuga imediata, permanência consciente; em vez de dramatização, densidade; em vez de controle absoluto, cococriação com o real. A densidade aqui é entendida como maturidade emocional sob pressão. É o momento em que o indivíduo deixa de operar apenas por reação e passa a agir com presença. Se há um convite implícito nestas páginas, é este: não desperdiçar a experiência da dor. Porque aquilo que desafia também educa. E aquilo que pesa também estrutura. A dor não é destino. É instrumento. E aprender a cocriar com ela é, talvez, um dos exercícios mais sofisticados da consciência humana. Gilberto Lima
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 3

Offline)
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