Gilberto Lima

Dor — Exercício de Densidade

Dor — Exercício de Densidade



A dor não me anuncia chegada.
Ela entra.
Ocupa.
Pressiona por dentro até que tudo em mim
aprenda a ficar.
No início, resisto.
O corpo cede, a mente tenta escapar,
o mundo perde volume.
Sobra apenas o essencial:
eu, diante do que sinto,
sem defesa,
sem narrativa.
Sinto medo.
Sinto cansaço.
Sinto a vertigem de não saber.
Cada tentativa de controle falha,
e a dor, paciente,
retira o excesso
até restar o centro.
No meio, algo se ajusta.
A dor não grita —
ela exige sustentação.
Testa a estrutura,
derruba o que não aguenta
e preserva o que sustenta.
O tempo se adensa.
O agora ganha corpo.
Não há discurso possível,
apenas presença.
Aprendo a permanecer
sem fugir,
sem reagir.
É ali que mudo o gesto.
Já não tento vencer o peso.
Aprendo a criar de outro modo:
escutando.
Cocriando com aquilo que resiste.
No fim, compreendo.
A dor não veio para destruir,
mas para alinhar.
Não pediu consolo,
pediu verdade.
E quando nada mais cai,
quando não há o que retirar,
permaneço inteiro.
Não porque a dor passou —
mas porque eu fiquei.