QUANDO A LUZ SE REFLETE NA DOR

Sezar Kosta

Senti o frio invadir meus ossos

como uma chuva lenta que se infiltra pelas frestas da alma.

No espelho, meu rosto parecia estranho,

uma máscara que não reconhecia,

e a casa inteira exalava o silêncio pesado

de uma espera que eu não sabia medir.

 

Naquele quarto, entre o tic-tac do relógio e o bater de meu próprio coração,

descobri pequenas cores que antes não via:

o tom de ouro do sol atravessando a cortina,

o perfume do café recém-passado,

o riso que escapava da vizinha ao telefone.

Era como se o mundo sussurrasse:

“a vida ainda pulsa, mesmo onde há sombra”.

 

Caminhei pelos dias pesados,

cada passo uma batalha invisível,

cada respiração um pacto silencioso

com algo maior que meu medo.

E nos momentos de cansaço extremo,

encontrei um abrigo inesperado dentro de mim:

a fé se tornou ponte sobre o abismo,

uma luz tênue que não queimava, mas aquecia.

 

Não era magia, nem fuga da dor —

era aprender a sentir cada instante,

como se cada gota de medo pudesse se transformar em coragem,

e cada lágrima em clareza.

No fim, percebi que a cura

não vinha apenas dos médicos ou remédios,

mas da forma como eu me permitia existir,

inteiro, vulnerável, humano,

mesmo diante do impossível.

 

E, nesse reconhecimento silencioso,

senti o medo dissolver-se em gratidão,

e a vida — ainda frágil, ainda tênue —

me mostrava que sobreviver também é aprender a amar a própria sombra.

  • Autor: Sezar Kosta (Offline Offline)
  • Publicado: 17 de fevereiro de 2026 15:37
  • Comentário do autor sobre o poema: O medo e a dor podem parecer muros intransponíveis, mas dentro deles existem pequenas frestas de luz que revelam a vida acontecendo nos detalhes mais simples. Cada respiração se torna um ato de coragem, cada momento de silêncio, uma chance de reconectar-se consigo mesmo. Descobrir a própria força é perceber que até a sombra carrega beleza, e que existir plenamente, com todas as vulnerabilidades, é encontrar calor onde parecia haver apenas frio. A vida pulsa suavemente, mesmo nos dias mais cinzentos, e aprender a aceitar isso é abraçar a própria humanidade.
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 3
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