Senti o frio invadir meus ossos
como uma chuva lenta que se infiltra pelas frestas da alma.
No espelho, meu rosto parecia estranho,
uma máscara que não reconhecia,
e a casa inteira exalava o silêncio pesado
de uma espera que eu não sabia medir.
Naquele quarto, entre o tic-tac do relógio e o bater de meu próprio coração,
descobri pequenas cores que antes não via:
o tom de ouro do sol atravessando a cortina,
o perfume do café recém-passado,
o riso que escapava da vizinha ao telefone.
Era como se o mundo sussurrasse:
“a vida ainda pulsa, mesmo onde há sombra”.
Caminhei pelos dias pesados,
cada passo uma batalha invisível,
cada respiração um pacto silencioso
com algo maior que meu medo.
E nos momentos de cansaço extremo,
encontrei um abrigo inesperado dentro de mim:
a fé se tornou ponte sobre o abismo,
uma luz tênue que não queimava, mas aquecia.
Não era magia, nem fuga da dor —
era aprender a sentir cada instante,
como se cada gota de medo pudesse se transformar em coragem,
e cada lágrima em clareza.
No fim, percebi que a cura
não vinha apenas dos médicos ou remédios,
mas da forma como eu me permitia existir,
inteiro, vulnerável, humano,
mesmo diante do impossível.
E, nesse reconhecimento silencioso,
senti o medo dissolver-se em gratidão,
e a vida — ainda frágil, ainda tênue —
me mostrava que sobreviver também é aprender a amar a própria sombra.