Sezar Kosta

QUANDO A LUZ SE REFLETE NA DOR

Senti o frio invadir meus ossos

como uma chuva lenta que se infiltra pelas frestas da alma.

No espelho, meu rosto parecia estranho,

uma máscara que não reconhecia,

e a casa inteira exalava o silêncio pesado

de uma espera que eu não sabia medir.

 

Naquele quarto, entre o tic-tac do relógio e o bater de meu próprio coração,

descobri pequenas cores que antes não via:

o tom de ouro do sol atravessando a cortina,

o perfume do café recém-passado,

o riso que escapava da vizinha ao telefone.

Era como se o mundo sussurrasse:

“a vida ainda pulsa, mesmo onde há sombra”.

 

Caminhei pelos dias pesados,

cada passo uma batalha invisível,

cada respiração um pacto silencioso

com algo maior que meu medo.

E nos momentos de cansaço extremo,

encontrei um abrigo inesperado dentro de mim:

a fé se tornou ponte sobre o abismo,

uma luz tênue que não queimava, mas aquecia.

 

Não era magia, nem fuga da dor —

era aprender a sentir cada instante,

como se cada gota de medo pudesse se transformar em coragem,

e cada lágrima em clareza.

No fim, percebi que a cura

não vinha apenas dos médicos ou remédios,

mas da forma como eu me permitia existir,

inteiro, vulnerável, humano,

mesmo diante do impossível.

 

E, nesse reconhecimento silencioso,

senti o medo dissolver-se em gratidão,

e a vida — ainda frágil, ainda tênue —

me mostrava que sobreviver também é aprender a amar a própria sombra.