Véspera cósmica

Amanda S. Moraes

Hoje eu dobro os tapetes do tempo

e sacudo a poeira das horas

como quem desalinha constelações domésticas.

Há rituais que parecem simples,

água correndo, portas abertas,

o sal dissolvendo excessos invisíveis,

mas cada gesto é um algoritmo de limpeza

reprogramando o que insiste em repetir.

Amanhã o céu fecha um olho.

O sol será mordido pela própria geometria

e o mundo fingirá surpresa

como se não soubesse

que toda luz precisa atravessar sombra

para lembrar que é luz.

Ano um.

Número que não acumula - inaugura.

Cavalo em chama, movimento que não pede licença.

Eu deveria ser linha reta,

mas há uma curvatura mínima na minha órbita

que altera discretamente as marés internas.

Nada dramático.

Apenas física íntima.

Eu organizo a casa,

mas o verdadeiro rearranjo é vetorial.

Algumas forças não se apagam,

apenas mudam de eixo.

E talvez maturidade

seja aceitar que certos campos gravitacionais

continuem atuando

sem que precisem ter nome.

Se o eclipse ensina algo

é que até a ocultação é parte do espetáculo.

Nem tudo que se encobre é ausência.

Às vezes é só alinhamento preciso

entre o que arde

e o que deve permanecer indecifrável.

 

  • Autor: Amanda S. Moraes (Offline Offline)
  • Publicado: 16 de fevereiro de 2026 10:28
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 2


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