Hoje eu dobro os tapetes do tempo
e sacudo a poeira das horas
como quem desalinha constelações domésticas.
Há rituais que parecem simples,
água correndo, portas abertas,
o sal dissolvendo excessos invisíveis,
mas cada gesto é um algoritmo de limpeza
reprogramando o que insiste em repetir.
Amanhã o céu fecha um olho.
O sol será mordido pela própria geometria
e o mundo fingirá surpresa
como se não soubesse
que toda luz precisa atravessar sombra
para lembrar que é luz.
Ano um.
Número que não acumula - inaugura.
Cavalo em chama, movimento que não pede licença.
Eu deveria ser linha reta,
mas há uma curvatura mínima na minha órbita
que altera discretamente as marés internas.
Nada dramático.
Apenas física íntima.
Eu organizo a casa,
mas o verdadeiro rearranjo é vetorial.
Algumas forças não se apagam,
apenas mudam de eixo.
E talvez maturidade
seja aceitar que certos campos gravitacionais
continuem atuando
sem que precisem ter nome.
Se o eclipse ensina algo
é que até a ocultação é parte do espetáculo.
Nem tudo que se encobre é ausência.
Às vezes é só alinhamento preciso
entre o que arde
e o que deve permanecer indecifrável.