Por um efêmero instante, o amor apresentou-se-me como luz,
um fulgor silente a prometer ordem
ao caos primevo que habitava meu peito,
ao rumor incessante que assolava minha mente.
Adveio qual augúrio,
sussurrando eternidades
com a voz da mais sedutora das falácias.
E eu cri, como invariavelmente crê
aquele que jamais conheceu o abismo da queda.
Cativo do afeto,
denominei destino
aquilo que não passava de quimera.
Ela foi refúgio, até deixar de sê-lo.
Foi verdade, até transmutar-se em engano.
Amei o que concebi.
Perdi aquilo que me constituía.
Então ouvi sua própria confissão:
Às vezes sou sua mãe e o seguro...
Às vezes sou sua irmã e o ajudo...
E às vezes sou a amante que o esfaqueia pelas costas!
A mulher por quem nos consumimos jamais se revela una.
Amamos ignorando qual de suas faces despertará ao alvorecer.
E é nessa incerteza à qual nos rendemos quando enamorados
que o homem consente e caminha lenta e solenemente,
em direção à própria ruína.
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Autor:
FILIPE4OLIVEIRA (
Offline) - Publicado: 14 de fevereiro de 2026 02:49
- Comentário do autor sobre o poema: Este poema representa, para mim, uma reflexão sobre a fragilidade das idealizações humanas e sobre a tendência que temos de transformar sentimentos em verdades absolutas. Ele nasce do confronto entre aquilo que desejamos encontrar no outro e aquilo que o outro realmente é: múltiplo, mutável e, por vezes, contraditório. A devoção retratada não é apenas amorosa, mas existencial simboliza o momento em que alguém deposita sentido, ordem e salvação em outra pessoa, acreditando ter encontrado um refúgio definitivo. A ruína, portanto, não surge apenas da perda do outro, mas da descoberta de que a imagem amada era, em grande parte, uma construção interior. O poema fala sobre maturidade emocional: o instante em que se percebe que amar também implica aceitar a incerteza e a impermanência. Mais do que uma crítica ao amor, ele expressa o despertar de uma consciência dolorosa, porém lúcida de que toda devoção excessiva carrega em si o risco da própria dissolução.
- Categoria: Amor
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