Por um efêmero instante, o amor apresentou-se-me como luz,
um fulgor silente a prometer ordem
ao caos primevo que habitava meu peito,
ao rumor incessante que assolava minha mente.
Adveio qual augúrio,
sussurrando eternidades
com a voz da mais sedutora das falácias.
E eu cri, como invariavelmente crê
aquele que jamais conheceu o abismo da queda.
Cativo do afeto,
denominei destino
aquilo que não passava de quimera.
Ela foi refúgio, até deixar de sê-lo.
Foi verdade, até transmutar-se em engano.
Amei o que concebi.
Perdi aquilo que me constituía.
Então ouvi sua própria confissão:
Às vezes sou sua mãe e o seguro...
Às vezes sou sua irmã e o ajudo...
E às vezes sou a amante que o esfaqueia pelas costas!
A mulher por quem nos consumimos jamais se revela una.
Amamos ignorando qual de suas faces despertará ao alvorecer.
E é nessa incerteza à qual nos rendemos quando enamorados
que o homem consente e caminha lenta e solenemente,
em direção à própria ruína.