Eles cumpriram o roteiro.
Emprego estável,
aliança justa,
filhos alinhados ao futuro esperado.
O carro é limpo.
O nome é respeitado.
A casa dorme cedo.
Mas à noite
a cidade abre fendas.
Luzes frias, ruas paralelas,
lugares onde o papel social não entra.
Ali não se compra prazer.
Troca-se silêncio por esquecimento.
O corpo vira desculpa,
o gesto vira descarga,
a identidade fica no banco traseiro.
Há salto alto no asfalto
e gravata esquecida no retrovisor.
Um acordo mudo:
usar e ser usado
sem deixar vestígios.
Depois, o volante retorna ao eixo.
As mãos reaprendem a firmeza.
O mesmo carro conduz
a mesma família
ao mesmo descanso ensaiado.
Nada aconteceu.
Tudo aconteceu.
E a estrada segue
indiferente
à duplicidade que transporta.
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Autor:
Noétrico (
Offline) - Publicado: 8 de fevereiro de 2026 17:44
- Comentário do autor sobre o poema: Este poema, fala da "vida dupla": o roteiro conservador de dia e a fuga silenciosa à noite. O carro simboliza essa travessia — conduz tanto a ordem quanto a transgressão. No fim, tudo retorna ao eixo, mas a duplicidade permanece e nenhuma das realidade que o personagem vive é dele de fato. Um agente imerso, com ações robóticas dentro dos mais variados constructos possíveis. Perdido ao completo acaso.
- Categoria: SociopolÃtico
- Visualizações: 3

Offline)
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