Eles cumpriram o roteiro.
Emprego estável,
aliança justa,
filhos alinhados ao futuro esperado.
O carro é limpo.
O nome é respeitado.
A casa dorme cedo.
Mas à noite
a cidade abre fendas.
Luzes frias, ruas paralelas,
lugares onde o papel social não entra.
Ali não se compra prazer.
Troca-se silêncio por esquecimento.
O corpo vira desculpa,
o gesto vira descarga,
a identidade fica no banco traseiro.
Há salto alto no asfalto
e gravata esquecida no retrovisor.
Um acordo mudo:
usar e ser usado
sem deixar vestígios.
Depois, o volante retorna ao eixo.
As mãos reaprendem a firmeza.
O mesmo carro conduz
a mesma família
ao mesmo descanso ensaiado.
Nada aconteceu.
Tudo aconteceu.
E a estrada segue
indiferente
à duplicidade que transporta.