Nenhuma mitologia reclamou autoria

Amanda S. Moraes

 

Houve um alinhamento que não entrou nos registros.

Nenhum observatório anotou.

Nenhuma mitologia reclamou autoria.

 

Ainda assim, algo se deslocou

no cálculo fino entre órbitas.

 

Desde então, certas constelações

parecem ligeiramente fora do lugar,

como se o céu tivesse respirado

no momento errado.

 

Não foi encontro.

Não foi ausência.

 

Foi um campo recém-criado

entre improbabilidades.

 

Os físicos chamariam de flutuação.

Os antigos, de presságio.

 

Ela não pesa, 

desestabiliza.

 

Está presente no modo como a luz

demora meio segundo a mais

para decidir se atravessa a janela.

No jeito como algumas músicas

terminam antes de começar.

Na exata fração de segundo

em que o coração hesita

sem motivo clínico.

Ele altera a geometria do tempo,

mas se recusa a ocupar espaço.

 

Não se repete.

Não se substitui.

Não se explica.

 

Permanece como permanecem

as forças fundamentais:

indiscutível,

invisível,

operante.

 

E se às vezes

o mundo parece excessivo,

barulhento,

desalinhado ,'

 

não é porque falta algo.

 

É porque uma equação essencial

segue aberta,

mantendo o universo em expansão

por motivos desconhecidos.

  • Autor: Amanda S. Moraes (Offline Offline)
  • Publicado: 2 de fevereiro de 2026 02:33
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 1


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