Houve um alinhamento que não entrou nos registros.
Nenhum observatório anotou.
Nenhuma mitologia reclamou autoria.
Ainda assim, algo se deslocou
no cálculo fino entre órbitas.
Desde então, certas constelações
parecem ligeiramente fora do lugar,
como se o céu tivesse respirado
no momento errado.
Não foi encontro.
Não foi ausência.
Foi um campo recém-criado
entre improbabilidades.
Os físicos chamariam de flutuação.
Os antigos, de presságio.
Ela não pesa,
desestabiliza.
Está presente no modo como a luz
demora meio segundo a mais
para decidir se atravessa a janela.
No jeito como algumas músicas
terminam antes de começar.
Na exata fração de segundo
em que o coração hesita
sem motivo clínico.
Ele altera a geometria do tempo,
mas se recusa a ocupar espaço.
Não se repete.
Não se substitui.
Não se explica.
Permanece como permanecem
as forças fundamentais:
indiscutível,
invisível,
operante.
E se às vezes
o mundo parece excessivo,
barulhento,
desalinhado ,\'
não é porque falta algo.
É porque uma equação essencial
segue aberta,
mantendo o universo em expansão
por motivos desconhecidos.