Dança do siri

Amanda S. Moraes

Estar inteiro no agora afina o olhar:

o mundo sussurra cenas que não pedem registro.

Um casal divide silêncio e uma lanterna,

pés na água, lua cheia costurando a maré,

o siri aprende a dança da fuga

enquanto o riso aprende a ficar.

Há tardes em que o corpo vira infância:

corre pelas dunas,

escorrega de bunda,

areia vira neve imaginada,

vento vira trilho,

e o tombo é gargalhada solta

que o céu aceita sem julgamento.

 

A paisagem muda de timbre conforme a luz.

O dia abre cores diretas,

a noite acende contrastes secretos.

Com lua, o mar vira espelho respirando;

sem ela, o escuro ensina profundidade

e a coragem aprende a ouvir.

 

O som é mapa oculto:

ondas conversam em ciclos,

grilos marcam o pulso do tempo,

sapos afinam o brejo,

chuva escreve versos no telhado

e a trovoada passa como um tambor antigo.

 

Às vezes basta um gesto mínimo:

um olhar que demora meio segundo a mais,

um abraço que encaixa o mundo,

corpos girando na beira d’água,

prata líquida nos cabelos,

o sorriso verdadeiro. .

 

Mergulhar à noite é atravessar um portal.

O frio acorda, o sal desperta,

o coração aprende outro ritmo.

E há o instante exato da onda escolhida:

entrar, furar espuma, esperar.

Quando ela chega, tudo silencia -

alguns segundos sem passado nem futuro,

apenas o êxtase simples

de existir

deslizando, inteiro, sobre o agora.

  • Autor: Amanda S. Moraes (Offline Offline)
  • Publicado: 31 de janeiro de 2026 03:44
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 1


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