Estar inteiro no agora afina o olhar:
o mundo sussurra cenas que não pedem registro.
Um casal divide silêncio e uma lanterna,
pés na água, lua cheia costurando a maré,
o siri aprende a dança da fuga
enquanto o riso aprende a ficar.
Há tardes em que o corpo vira infância:
corre pelas dunas,
escorrega de bunda,
areia vira neve imaginada,
vento vira trilho,
e o tombo é gargalhada solta
que o céu aceita sem julgamento.
A paisagem muda de timbre conforme a luz.
O dia abre cores diretas,
a noite acende contrastes secretos.
Com lua, o mar vira espelho respirando;
sem ela, o escuro ensina profundidade
e a coragem aprende a ouvir.
O som é mapa oculto:
ondas conversam em ciclos,
grilos marcam o pulso do tempo,
sapos afinam o brejo,
chuva escreve versos no telhado
e a trovoada passa como um tambor antigo.
Às vezes basta um gesto mínimo:
um olhar que demora meio segundo a mais,
um abraço que encaixa o mundo,
corpos girando na beira d’água,
prata líquida nos cabelos,
o sorriso verdadeiro. .
Mergulhar à noite é atravessar um portal.
O frio acorda, o sal desperta,
o coração aprende outro ritmo.
E há o instante exato da onda escolhida:
entrar, furar espuma, esperar.
Quando ela chega, tudo silencia -
alguns segundos sem passado nem futuro,
apenas o êxtase simples
de existir
deslizando, inteiro, sobre o agora.