Entre a palavra e o silêncio

lu.poesya

Eu digo que não sei me expressar,
mas isso é só a superfície.
A verdade é que sinto fundo demais
pra caber em frases simples.

Quando tento falar,
as palavras se quebram antes de sair.
Ficam presas na garganta,
como se tivessem medo
de não serem compreendidas.

Então eu calo.
E no silêncio, aprendo a conviver
com tudo o que nunca foi dito.
Com emoções acumuladas,
com vontades de ser entendida
sem precisar explicar.

O peito nunca descansa.
Ele fala em batidas longas,
em cansaços que ninguém vê,
em noites onde pensar dói mais
do que sentir.

Aprendi cedo a disfarçar.
Transformei confusão em maturidade,
tristeza em força,
e o medo de incomodar
em silêncio educado.

Mas há dias em que o peso aparece.
Dias em que tudo parece demais
e eu não sei por onde começar
a ser honesta.

É nesses dias que escrevo.
Porque no papel, não preciso ser clara,
nem leve,
nem forte.
Posso ser quebrada, confusa,
inteira do meu jeito.

A escrita não me julga.
Ela me acolhe.
Deixa que o que dói exista
sem pedir pressa,
sem pedir explicação.

Talvez eu nunca saiba dizer
o que sinto olhando nos olhos.
Talvez minha voz sempre falhe
quando mais preciso dela.

Mas enquanto eu puder escrever,
o que mora no meu peito
não vai desaparecer em silêncio.

Mesmo melancólico,
sentir ainda é resistência.
E continuar sentindo,
mesmo cansada,
é a forma mais sincera
que encontrei de existir.

  • Autor: lu.poesya (Offline Offline)
  • Publicado: 30 de janeiro de 2026 21:37
  • Comentário do autor sobre o poema: Este poema nasceu da dificuldade de transformar sentimentos em palavras faladas. Ele foi escrito a partir do silêncio — daquele que não é vazio, mas cheio de coisas guardadas, adiadas e nunca ditas. Surge da experiência de sentir profundamente e, ainda assim, não conseguir se expressar com clareza diante do outro. A escrita aparece como refúgio e linguagem possível. É no papel que a voz encontra espaço, sem a pressa das respostas imediatas, sem o medo de incomodar ou de ser mal compreendida. O poema foi criado para acolher aquilo que não soube ser dito em voz alta, mas que sempre existiu com intensidade. Mais do que um desabafo, ele é um reconhecimento: de que o silêncio também comunica, de que a sensibilidade não é fragilidade e de que continuar sentindo, mesmo cansada, é uma forma de resistência e de existência.
  • Categoria: Triste
  • Visualizações: 2
Comentários +

Comentários1

  • Brunna Keila

    Fico lisonjeada em ler uma poesia tão linda e bem interpretada. O falar de uma pessoa que se mantém em silêncio constante acontece através da escrita, porque calar nunca foi opção. A falta de escuta transforma o papel em refúgio, em um lugar onde a voz finalmente encontra espaço sem pressa, sem julgamentos, sem o medo de ser mal compreendida. O poema acolhe o que não pôde ser dito em voz alta e prova que o silêncio não é vazio — ele comunica, resiste e existe. Há uma sensibilidade profunda aqui, que não revela fragilidade, mas coragem: a de continuar sentindo, mesmo cansada, e de transformar o que dói em linguagem possível.

    Abraços poéticos. Se sinta escutada.



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