A Sintaxe do Afeto

Nelysson Santos De Araujo

Pela ousadia da palavra e pelo manuseio singelo porém observador da língua, escreveria para ti. Usaria algumas orações e faria delas o predicado do sujeito que sou eu, eu mesmo, que te escrevo. Nessa oração você seria o núcleo e dona de toda a atenção da minha sintaxe. Colocar-te-ia ao meu lado como a junção de duas letras que formam um som – o dígrafo. Estando separadas, essas letras não produziriam som algum, de igual modo, eu sem você também me torno um pouco mudo. Conjugaria alguns verbos e me aproveitaria deles. Conjugaria desejar para dizer que desejo-te, almejar para dizer que almejo-te,  esperar para dizer que espero-te e já abusando da ênclise e sem nenhuma conotação usaria o verbo amar para dizer que amo-te. Com a hipérbole eu diria que sonhei mil noites contigo, com a metáfora diria que li o livro dos teus olhos tão meigos. Com a comparação diria que teu olhar é como fogo que arde em mim e ao mesmo tempo como orvalho que me refresca. A onomatopeia me permite dizer que meu coração vez ou outra faz tun-tun quando a vejo. De toda as linguagens que posso usar, prefiro a do tato das minhas carícias e o enlace das nossas almas no enredo de um abraço. Eu facilmente escreveria sobre nós um artigo completo ou quem sabe um texto dissertativo argumentativo. Escreveria crônicas e contos, charges, versos e poesias. Escreveria os mais diversos gêneros, todos quantos coubessem a nossa história, pois com você eu sinto que posso fazer de tudo uma rima, até da prosa.

 

Por Nélysson Santos de Araújo

 

  • Autor: Nelysson Santos De Araujo (Offline Offline)
  • Publicado: 30 de janeiro de 2026 21:06
  • Comentário do autor sobre o poema: A Sintaxe do Afeto não é apenas uma declaração; é um inventário da alma realizado através das engrenagens da língua. Aqui, o autor despe a gramática de sua rigidez escolar para vesti-la com a urgência do desejo. Entre sujeitos que se buscam e núcleos que se impõem, a obra nos conduz por um labirinto onde a ênclise é um ato de devoção e o dígrafo, a prova máxima de que ninguém é inteiro em isolamento. Um texto para quem compreende que amar é, acima de tudo, saber escrever o outro em si mesmo.
  • Categoria: Não classificado
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