Antes das fronteiras,
antes da pressa,
antes da palavra “mundo” aprender a se dizer inteira,
houve gente olhando o céu
e tentando decifrar o próprio pulso.
Não se conheciam,
não cruzaram massas de água,
não dividiram terras
e ainda assim tocaram o mesmo enigma
por ângulos distintos.
No vale do Nilo,
o corpo humano era espelho do firmamento:
ossos como pilares,
veias como rios sagrados,
o coração pesado na balança da verdade.
Chamaram isso de ordem.
Nos platôs dos povos maias,
o tempo não corria,
engrenava.
Dias tinham dentes,
eras respiravam,
e cada nascimento era uma equação
entre ciclos solares e memória ancestral.
Os astecas ouviam o sol exigir movimento.
Sabiam:
se o coração para, o cosmos desaba.
Viver era alimentar o ritmo do universo
com gesto, coragem e presença.
Entre os hopi,
o mundo não começou pronto.
Está em processo.
Cada pessoa é um estágio da criação,
um teste de maturidade espiritual.
Não há pressa:
há responsabilidade.
Na China antiga,
o sopro vital não separava matéria de espírito.
Tudo era fluxo,
yin recolhendo,
yang expandindo,
o invisível moldando o visível
como vento que ensina a árvore a dançar.
Os povos da floresta sabiam
que ninguém nasce sozinho.
O nome vinha da escuta:
do canto do pássaro no instante exato,
da lua que se inclinava,
do cheiro da terra após a chuva.
Identidade não era escolha e
sim leitura do ambiente.
E em todos esses lugares,
o mesmo gesto se repete:
alguém levanta os olhos,
alguém marca o chão,
alguém tenta entender
por que nasceu ali
e não em outro ponto da espiral.
Chamaram de signos,
de trigramas,
de tons,
de direções,
de números que vibram.
Mudam os nomes,
não o assombro.
Porque nascer
nunca foi aleatório.
O dia carrega uma qualidade,
o horário inclina o temperamento,
o vento imprime tendência,
o planeta sugere tensão,
as cores emergem sentimentos,
a lua grava memória.
Cada ser chega com uma partitura invisível,
meio escrita,
meio improviso.
E depois vem a vida,
essa grande indisciplina,
rasurando mapas,
testando vocações,
desobedecendo previsões.
A escritora,
essa que observa, recolhe, cruza saberes,
não busca certeza.
Busca ressonância.
Sabe que o conhecimento não serve para aprisionar,
mas para ampliar a escuta.
Ela tenta aprender a ler o céu como quem lê um mito,
e os mitos como quem lê a si mesma
sem a ilusão de se decifrar por completo.
Porque talvez o sentido não esteja
em saber quem somos,
mas em reconhecer
que sempre fomos muitos:
terra e cálculo,
instinto e símbolo,
carne e constelação.
A história humana não é uma linha.
É um coro.
Vozes separadas pelo oceano
cantando perguntas parecidas
em idiomas distintos.
E cada vez que alguém percebe isso,
não como teoria,
mas como arrepio,
algo antigo desperta.
Não é fé.
Não é ciência.
É um terceiro lugar,
onde o mistério não precisa ser resolvido
para ser respeitado.
Talvez seja por isso
que certos textos pedem releitura:
não porque escondem respostas,
mas porque lembram
que o saber verdadeiro
não termina,
ele orbita.
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Autor:
Amanda S. Moraes (
Offline) - Publicado: 29 de janeiro de 2026 15:51
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 3

Offline)
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