Amanda S. Moraes

Partitura universal

Antes das fronteiras,

antes da pressa,

antes da palavra “mundo” aprender a se dizer inteira,

houve gente olhando o céu

e tentando decifrar o próprio pulso.

 

Não se conheciam,

não cruzaram massas de água,

não dividiram terras

e ainda assim tocaram o mesmo enigma

por ângulos distintos.

 

No vale do Nilo,

o corpo humano era espelho do firmamento:

ossos como pilares,

veias como rios sagrados,

o coração pesado na balança da verdade.

Chamaram isso de ordem.

 

Nos platôs dos povos maias,

o tempo não corria,

engrenava.

Dias tinham dentes,

eras respiravam,

e cada nascimento era uma equação

entre ciclos solares e memória ancestral.

 

Os astecas ouviam o sol exigir movimento.

Sabiam:

se o coração para, o cosmos desaba.

Viver era alimentar o ritmo do universo

com gesto, coragem e presença.

 

Entre os hopi,

o mundo não começou pronto.

Está em processo.

Cada pessoa é um estágio da criação,

um teste de maturidade espiritual.

Não há pressa:

há responsabilidade.

 

Na China antiga,

o sopro vital não separava matéria de espírito.

Tudo era fluxo,

yin recolhendo,

yang expandindo,

o invisível moldando o visível

como vento que ensina a árvore a dançar.

 

Os povos da floresta sabiam

que ninguém nasce sozinho.

O nome vinha da escuta:

do canto do pássaro no instante exato,

da lua que se inclinava,

do cheiro da terra após a chuva.

Identidade não era escolha e

sim leitura do ambiente.

 

E em todos esses lugares,

o mesmo gesto se repete:

alguém levanta os olhos,

alguém marca o chão,

alguém tenta entender

por que nasceu ali

e não em outro ponto da espiral.

 

Chamaram de signos,

de trigramas,

de tons,

de direções,

de números que vibram.

Mudam os nomes,

não o assombro.

 

Porque nascer

nunca foi aleatório.

 

O dia carrega uma qualidade,

o horário inclina o temperamento,

o vento imprime tendência,

o planeta sugere tensão,

as cores emergem sentimentos,

a lua grava memória.

Cada ser chega com uma partitura invisível,

meio escrita,

meio improviso.

 

E depois vem a vida,

essa grande indisciplina,

rasurando mapas,

testando vocações,

desobedecendo previsões.

 

A escritora,

essa que observa, recolhe, cruza saberes,

não busca certeza.

Busca ressonância.

Sabe que o conhecimento não serve para aprisionar,

mas para ampliar a escuta.

Ela tenta aprender a ler o céu como quem lê um mito,

e os mitos como quem lê a si mesma

sem a ilusão de se decifrar por completo.

 

Porque talvez o sentido não esteja

em saber quem somos,

mas em reconhecer

que sempre fomos muitos:

terra e cálculo,

instinto e símbolo,

carne e constelação.

 

A história humana não é uma linha.

É um coro.

Vozes separadas pelo oceano

cantando perguntas parecidas

em idiomas distintos.

 

E cada vez que alguém percebe isso,

não como teoria,

mas como arrepio,

algo antigo desperta.

 

Não é fé.

Não é ciência.

É um terceiro lugar,

onde o mistério não precisa ser resolvido

para ser respeitado.

 

Talvez seja por isso

que certos textos pedem releitura:

não porque escondem respostas,

mas porque lembram

que o saber verdadeiro

não termina,

ele orbita.