Conheci um homem
que contava os dias
como quem empilha moedas num bolso furado.
Falava do amanhã com ansiedade,
do depois como promessa,
mas passava pelo hoje
sem tirar o chapéu.
Eu o via todas as manhãs
caminhando apressado pela rua estreita,
olhos presos no pulso,
onde o relógio mandava mais que o coração.
Nunca reparava na padaria abrindo as portas,
no cheiro do pão quente escapando cedo,
nem no velho sentado à sombra
ensinando paciência ao mundo.
Um dia, o homem parou.
Não por escolha —
a vida, às vezes, puxa o freio sozinha.
Sentou-se no banco da praça,
respiração curta,
mãos trêmulas,
como se tivesse corrido demais
atrás de algo que nunca o esperou.
Fiquei ali, em silêncio,
e percebi que ele olhava ao redor
pela primeira vez.
Os pássaros discutiam o céu,
uma criança ria sem motivo,
o sol desenhava o tempo
devagar no chão.
Nos olhos dele havia espanto,
quase arrependimento,
como quem descobre tarde
que o essencial não faz barulho.
Depois daquele dia,
o relógio continuou no pulso,
mas já não dava ordens.
Ele aprendeu a sentar,
a escutar,
a demorar no abraço
e a terminar o café sem pressa.
Os passos ficaram mais curtos,
porém mais firmes.
Foi assim que entendi,
vendo e vivendo:
o tempo não é algo que se acumula,
é algo que se preenche.
E a vida,
essa senhora imprevisível,
não pergunta quanto queremos dela —
apenas observa
o que fazemos
com o instante que nos entrega.
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Autor:
Sezar Kosta (
Offline) - Publicado: 29 de janeiro de 2026 07:25
- Comentário do autor sobre o poema: Vivemos como se o tempo fosse um inimigo a ser vencido, quando na verdade ele só pede cuidado. Na correria diária, deixamos passar os cheiros, os encontros e os silêncios que sustentam a vida. Às vezes, é preciso parar à força para perceber o quanto estávamos ausentes de nós mesmos. Quando desaceleramos, o mundo não muda — somos nós que finalmente chegamos até ele.
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 16
- Usuários favoritos deste poema: Sezar Kosta, Arthur Santos

Offline)
Comentários2
Isso mesmo que acontece, no corre, corre, na agitação do dia, no querer sempre mais se esquece do essencial, do abraço carinhoso, do bom dia, da atenção que podemos dar a alguém mostrando sua importância.Parabéns por mais um poema que nos faz enxergar a importância de cada momento. Bom dia poeta.
Um belo poema para refletir sobre os dias de hoje.
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