Conheci um homem
que contava os dias
como quem empilha moedas num bolso furado.
Falava do amanhã com ansiedade,
do depois como promessa,
mas passava pelo hoje
sem tirar o chapéu.
Eu o via todas as manhãs
caminhando apressado pela rua estreita,
olhos presos no pulso,
onde o relógio mandava mais que o coração.
Nunca reparava na padaria abrindo as portas,
no cheiro do pão quente escapando cedo,
nem no velho sentado à sombra
ensinando paciência ao mundo.
Um dia, o homem parou.
Não por escolha —
a vida, às vezes, puxa o freio sozinha.
Sentou-se no banco da praça,
respiração curta,
mãos trêmulas,
como se tivesse corrido demais
atrás de algo que nunca o esperou.
Fiquei ali, em silêncio,
e percebi que ele olhava ao redor
pela primeira vez.
Os pássaros discutiam o céu,
uma criança ria sem motivo,
o sol desenhava o tempo
devagar no chão.
Nos olhos dele havia espanto,
quase arrependimento,
como quem descobre tarde
que o essencial não faz barulho.
Depois daquele dia,
o relógio continuou no pulso,
mas já não dava ordens.
Ele aprendeu a sentar,
a escutar,
a demorar no abraço
e a terminar o café sem pressa.
Os passos ficaram mais curtos,
porém mais firmes.
Foi assim que entendi,
vendo e vivendo:
o tempo não é algo que se acumula,
é algo que se preenche.
E a vida,
essa senhora imprevisível,
não pergunta quanto queremos dela —
apenas observa
o que fazemos
com o instante que nos entrega.