Sezar Kosta

O RELÓGIO QUE NÃO ME PERTENCIA

Conheci um homem

que contava os dias

como quem empilha moedas num bolso furado.

Falava do amanhã com ansiedade,

do depois como promessa,

mas passava pelo hoje

sem tirar o chapéu.

 

Eu o via todas as manhãs

caminhando apressado pela rua estreita,

olhos presos no pulso,

onde o relógio mandava mais que o coração.

Nunca reparava na padaria abrindo as portas,

no cheiro do pão quente escapando cedo,

nem no velho sentado à sombra

ensinando paciência ao mundo.

 

Um dia, o homem parou.

Não por escolha —

a vida, às vezes, puxa o freio sozinha.

Sentou-se no banco da praça,

respiração curta,

mãos trêmulas,

como se tivesse corrido demais

atrás de algo que nunca o esperou.

 

Fiquei ali, em silêncio,

e percebi que ele olhava ao redor

pela primeira vez.

Os pássaros discutiam o céu,

uma criança ria sem motivo,

o sol desenhava o tempo

devagar no chão.

Nos olhos dele havia espanto,

quase arrependimento,

como quem descobre tarde

que o essencial não faz barulho.

 

Depois daquele dia,

o relógio continuou no pulso,

mas já não dava ordens.

Ele aprendeu a sentar,

a escutar,

a demorar no abraço

e a terminar o café sem pressa.

Os passos ficaram mais curtos,

porém mais firmes.

 

Foi assim que entendi,

vendo e vivendo:

o tempo não é algo que se acumula,

é algo que se preenche.

E a vida,

essa senhora imprevisível,

não pergunta quanto queremos dela —

apenas observa

o que fazemos

com o instante que nos entrega.