Quem Eu Fui Morreu Tentando Me Salvar

Adam N

Há quanto tempo você não se enxerga

sem precisar se justificar?

Sem olhar no espelho

como quem interroga um suspeito

e não um reflexo.

 

A criança ainda existe,

mas foi enterrada viva

sob decisões “necessárias”,

sob guerras que você jurou

que não queria travar —

mas travou mesmo assim.

 

Você chamou de ambição.

Chamou de sobrevivência.

Chamou de destino.

 

Mas toda noite o peso volta

e pergunta quantos nomes

foram trocados por um objetivo

que nunca foi realmente seu.

 

Um lado seu ainda reza.

Baixo. Envergonhado.

Pede paz, pede silêncio,

pede só mais um dia sem sangue.

 

O outro lado aperta mais forte.

Não pede desculpa.

Não pede permissão.

Só faz.

 

E nessa guerra interna,

não existem vencedores —

só versões suas

cada vez mais irreconhecíveis.

 

Você diz que morreu há décadas

porque é mais fácil

do que admitir

que ainda sente.

 

A estética vira armadura.

O discurso vira máscara.

Enganar os outros

é só treino

pra continuar enganando a si mesmo.

 

“Quem sou eu?”

Você pergunta

como se alguém pudesse responder

sem tocar na ferida.

 

Você cansou de pesadelos

porque vive acordado neles.

Medos não enfrentados

viraram hábitos.

Anseios obscuros

viraram fome.

 

E ninguém estava lá.

Não porque não quiseram —

mas porque você aprendeu cedo

que ser forte

significa não chamar ninguém.

 

A mente escorre.

A sanidade evapora.

E o ghoul não nasce do nada:

ele é alimentado

toda vez que você engole o que sente.

 

Você desafia o mundo a te julgar

porque já se condenou antes.

Diz que seu lado bom morreu

pra não ter que lidar

com o luto de mantê-lo vivo.

 

Ela caminha até você —

não como salvação,

mas como espelho.

Olhos que revelam desejos

que você finge não ter,

beijos que prometem alívio

e entregam mais culpa.

 

Mentir pra si mesmo dói mais

porque não há testemunhas.

Não há absolvição.

 

Só a pergunta ecoando:

quantos caíram

pra que você continuasse de pé?

 

E agora você teme

machucar quem se aproxima

não porque quer,

mas porque já não sabe

onde termina você

e onde começa a fera.

 

O rancor virou casa.

A solidão virou regra.

 

E o ghoul dentro de você

não pede destruição —

ele pede reconhecimento.

 

Porque talvez

o verdadeiro horror

não seja a fome de maldade,

mas o medo

de descobrir

quem você seria

sem ela.

  • Autor: Adam (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 27 de janeiro de 2026 12:18
  • Comentário do autor sobre o poema: Esse poema sou eu olhando pra dentro sem maquiagem. Ele fala do momento em que eu percebi que tentar ser forte o tempo todo me custou partes importantes de quem eu era. Não é sobre virar “vilão”, é sobre sobreviver quando ser bom já não era suficiente. Pra mim, ele significa a perda da inocência — aquela versão que acreditava que intenção boa bastava. Eu quis proteger, quis salvar, quis aguentar tudo… e nisso acabei me quebrando por dentro. O “ghoul” não é maldade gratuita, é defesa. É o que nasce quando você apanha demais do mundo e aprende a morder antes de sangrar. Também é um poema sobre identidade. Sobre não saber mais quem você é depois de fazer escolhas difíceis, de atravessar coisas que ninguém viu, de carregar culpas que não foram só suas. Eu não me orgulho de tudo, mas também não finjo que daria pra ter sido diferente com as cartas que eu tinha. No fim, ele representa aceitação. Não de que estou perdido — mas de que eu mudei. E que quem eu fui morreu tentando fazer o certo. O que ficou ainda sente, ainda luta… só aprendeu que ser honrado também dói, e às vezes isola. É uma confissão silenciosa. Não pra pedir perdão. Mas pra finalmente ser honesto comigo mesmo.
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 2


Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.