Há quanto tempo você não se enxerga
sem precisar se justificar?
Sem olhar no espelho
como quem interroga um suspeito
e não um reflexo.
A criança ainda existe,
mas foi enterrada viva
sob decisões “necessárias”,
sob guerras que você jurou
que não queria travar —
mas travou mesmo assim.
Você chamou de ambição.
Chamou de sobrevivência.
Chamou de destino.
Mas toda noite o peso volta
e pergunta quantos nomes
foram trocados por um objetivo
que nunca foi realmente seu.
Um lado seu ainda reza.
Baixo. Envergonhado.
Pede paz, pede silêncio,
pede só mais um dia sem sangue.
O outro lado aperta mais forte.
Não pede desculpa.
Não pede permissão.
Só faz.
E nessa guerra interna,
não existem vencedores —
só versões suas
cada vez mais irreconhecíveis.
Você diz que morreu há décadas
porque é mais fácil
do que admitir
que ainda sente.
A estética vira armadura.
O discurso vira máscara.
Enganar os outros
é só treino
pra continuar enganando a si mesmo.
“Quem sou eu?”
Você pergunta
como se alguém pudesse responder
sem tocar na ferida.
Você cansou de pesadelos
porque vive acordado neles.
Medos não enfrentados
viraram hábitos.
Anseios obscuros
viraram fome.
E ninguém estava lá.
Não porque não quiseram —
mas porque você aprendeu cedo
que ser forte
significa não chamar ninguém.
A mente escorre.
A sanidade evapora.
E o ghoul não nasce do nada:
ele é alimentado
toda vez que você engole o que sente.
Você desafia o mundo a te julgar
porque já se condenou antes.
Diz que seu lado bom morreu
pra não ter que lidar
com o luto de mantê-lo vivo.
Ela caminha até você —
não como salvação,
mas como espelho.
Olhos que revelam desejos
que você finge não ter,
beijos que prometem alívio
e entregam mais culpa.
Mentir pra si mesmo dói mais
porque não há testemunhas.
Não há absolvição.
Só a pergunta ecoando:
quantos caíram
pra que você continuasse de pé?
E agora você teme
machucar quem se aproxima
não porque quer,
mas porque já não sabe
onde termina você
e onde começa a fera.
O rancor virou casa.
A solidão virou regra.
E o ghoul dentro de você
não pede destruição —
ele pede reconhecimento.
Porque talvez
o verdadeiro horror
não seja a fome de maldade,
mas o medo
de descobrir
quem você seria
sem ela.