O último dia

Amanda S. Moraes

Se agora fosse o último dia,

 

eu pisaria a rua descalça

como quem abençoa o chão,

deixaria o sol me escolher primeiro

e riria antes de qualquer explicação.

Comeria manga escorrendo pelo pulso,

beberia café forte sem medir a hora,

dançaria na cozinha ao som de um rádio antigo

como se o mundo ainda tivesse amanhã,

mesmo que não tivesse.

Eu me lembraria

do sal na pele depois do mergulho,

do cheiro de chuva quente no asfalto,

do tempero que só existe aqui

onde a vida insiste em florescer

apesar de tudo.

Se este fosse o fim,

eu vestiria meu corpo sem culpa:

ancas abertas ao vento,

olhos brilhando de travessura,

coração solto, indisciplinado.

Porque viver,

quando é de verdade,

dá um tesão manso,

não o da urgência,

mas o do prazer de estar inteira

dentro do próprio riso.

Eu agradeceria às árvores

pela sombra gratuita,

aos rios por não perguntarem quem somos,

às vozes que inventaram canções

para atravessar tempos difíceis

sem perder o rebolado.

Se o mundo ameaça endurecer,

eu amoleço.

Se gritam ordens,

eu canto.

Se constroem muros,

eu tempero feijão

e chamo de casa.

Que tentem controlar mentes,

metais, mercados, destinos.

Aqui, meu território é o agora:

o abraço demorado,

a gargalhada fora de hora,

o prazer simples de existir

com o corpo aceso

e a alma em festa.

Se tudo acabar daqui a pouco,

que me encontrem assim:

gostosa de vida,

amada por mim mesma,

com os cabelos cheios de

sol

e o coração sambando

como quem diz ao universo:

valeu.

  • Autor: Amanda S. Moraes (Offline Offline)
  • Publicado: 24 de janeiro de 2026 08:03
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 3
  • Usuários favoritos deste poema: Apegaua
Comentários +

Comentários2

  • Apegaua

    Acho que foste a poetisa encarregada pelo tempo de ensinar o andar aos ponteiros.
    Se não,
    Queira me desculpar.
    Pois já não se faz mais lentes como antigamente.
    Prazer.
    Apegaua.

    • Amanda S. Moraes

      Não ensino os ponteiros.
      Apenas caminho enquanto eles tentam me acompanhar.
      Prazer.
      =)

    • Viviane.93

      Esse poema é puro gosto pela vida. Leve, intenso e cheio de presença, celebra o agora, o corpo e os pequenos prazeres sem culpa. O final é forte e bonito, com essa sensação de alguém inteira, livre, dizendo “valeu” ao mundo.



    Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.