Amanda S. Moraes

O Ășltimo dia

Se agora fosse o último dia,

 

eu pisaria a rua descalça

como quem abençoa o chão,

deixaria o sol me escolher primeiro

e riria antes de qualquer explicação.

Comeria manga escorrendo pelo pulso,

beberia café forte sem medir a hora,

dançaria na cozinha ao som de um rádio antigo

como se o mundo ainda tivesse amanhã,

mesmo que não tivesse.

Eu me lembraria

do sal na pele depois do mergulho,

do cheiro de chuva quente no asfalto,

do tempero que só existe aqui

onde a vida insiste em florescer

apesar de tudo.

Se este fosse o fim,

eu vestiria meu corpo sem culpa:

ancas abertas ao vento,

olhos brilhando de travessura,

coração solto, indisciplinado.

Porque viver,

quando é de verdade,

dá um tesão manso,

não o da urgência,

mas o do prazer de estar inteira

dentro do próprio riso.

Eu agradeceria às árvores

pela sombra gratuita,

aos rios por não perguntarem quem somos,

às vozes que inventaram canções

para atravessar tempos difíceis

sem perder o rebolado.

Se o mundo ameaça endurecer,

eu amoleço.

Se gritam ordens,

eu canto.

Se constroem muros,

eu tempero feijão

e chamo de casa.

Que tentem controlar mentes,

metais, mercados, destinos.

Aqui, meu território é o agora:

o abraço demorado,

a gargalhada fora de hora,

o prazer simples de existir

com o corpo aceso

e a alma em festa.

Se tudo acabar daqui a pouco,

que me encontrem assim:

gostosa de vida,

amada por mim mesma,

com os cabelos cheios de

sol

e o coração sambando

como quem diz ao universo:

valeu.