Assuma a bagunça que eu sou
— digo isso sem levantar a voz,
como quem oferece um café
numa xícara lascada,
mas limpa por dentro.
Não tente me arrumar:
minhas gavetas aprenderam a gostar do caos,
e cada meia perdida
é um argumento contra a ordem absoluta.
Não serei sua.
Tenho ciúmes da minha própria sombra
e compromisso marcado com o acaso.
Pertencer me dá alergia,
coço a alma e espirro vontades.
Não serei séria.
Rio no meio das tragédias pequenas,
converso com plantas
e às vezes pergunto ao espelho
se ele também tem dúvidas existenciais.
(Quase sempre ele embaça.)
Não estarei sóbria.
Bebo ideias, exagero nos sonhos,
fico tonta de possibilidades.
A lucidez total me parece suspeita,
como um chão que nunca range.
Assuma a bagunça que eu sou
sem tentar me dobrar em gavetas alheias.
Sou paradoxal por natureza:
quero liberdade com laços frouxos,
sentido com espaço para errar.
Se ficar, fique assim:
entre o riso e o abismo,
entre o caos e a ternura.
Não prometo ordem,
mas ofereço verdade —
dessas que tropeçam,
levantam rindo
e seguem pensando se a vida,
no fundo,
não é só isso mesmo:
uma bagunça pedindo afeto,
sem jamais querer virar arrumação.
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Autor:
Bulaxa Kebrada (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 22 de janeiro de 2026 17:30
- Comentário do autor sobre o poema: Não se engane comigo, é na bagunça que a minha alma encontra a mais estranha ordem. Há um lado sombrio em mim, sim, uma sombra que se disfarça em doçura para camuflar as cicatrizes que o tempo, com sua pressa implacável, bordou em mim.
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 3
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