Luana Santahelena

Manual de Instruções para Quem Não Vem com Manual

Assuma a bagunça que eu sou

— digo isso sem levantar a voz,

como quem oferece um café

numa xícara lascada,

mas limpa por dentro.

 

Não tente me arrumar:

minhas gavetas aprenderam a gostar do caos,

e cada meia perdida

é um argumento contra a ordem absoluta.

 

Não serei sua.

Tenho ciúmes da minha própria sombra

e compromisso marcado com o acaso.

Pertencer me dá alergia,

coço a alma e espirro vontades.

 

Não serei séria.

Rio no meio das tragédias pequenas,

converso com plantas

e às vezes pergunto ao espelho

se ele também tem dúvidas existenciais.

(Quase sempre ele embaça.)

 

Não estarei sóbria.

Bebo ideias, exagero nos sonhos,

fico tonta de possibilidades.

A lucidez total me parece suspeita,

como um chão que nunca range.

 

Assuma a bagunça que eu sou

sem tentar me dobrar em gavetas alheias.

Sou paradoxal por natureza:

quero liberdade com laços frouxos,

sentido com espaço para errar.

 

Se ficar, fique assim:

entre o riso e o abismo,

entre o caos e a ternura.

Não prometo ordem,

mas ofereço verdade —

dessas que tropeçam,

levantam rindo

e seguem pensando se a vida,

no fundo,

não é só isso mesmo:

uma bagunça pedindo afeto,

sem jamais querer virar arrumação.