Disponibilidade lúcida

Noétrico

Há um campo invisível onde os corpos se reconhecem
antes da palavra.
Sem excesso, sem carência —
apenas disponibilidade lúcida.

Olhares atravessam sem pedir licença.
Alguns permanecem, firmes,
como quem sustenta um segredo compartilhado.
Outros sorriem e recuam,
ensaiam presença sem invadir.

Há quem se aproxime com solidez silenciosa,
testando o espaço com respeito
e curiosidade medida.
Há quem chega leve,
sem fixar, mas sem fugir,
e permanece — é o gesto mais claro de todos.

Outros trazem o olhar denso,
a tentativa de impor altura,
força, direção,
como se o desejo precisasse provar domínio
para existir.

Há também o toque brincado,
íntimo sem pressa,
que reduz a distância pelo riso
e desfaz hierarquias no detalhe mínimo.

E existe aquele vínculo antigo,
feito de negação e retorno,
de confronto contínuo,
onde a proximidade se disfarça de rivalidade
e a verdade só aparece nos silêncios longos,
sólitos.

Tudo acontece sem anúncio.
É claro.
É direto.
É vivo.

Não se trata de escolher agora,
mas de reconhecer o jogo em andamento
e a estranha, agradável certeza
de ser visto —
sem excesso,
sem máscara,
sem fuga,
como luz que pousa e não exige.

  • Autor: Noétrico (Offline Offline)
  • Publicado: 15 de janeiro de 2026 12:10
  • Comentário do autor sobre o poema: A forma como olhamos as pessoas e a forma como somos olhados, as histórias implícitas e cada movimento que é único do ser.
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 6
Comentários +

Comentários2

  • Arthur Santos

    Parece ser assim que a vida funciona. Nunca o saberemos.
    Gosto da imagem poética: ...e a verdade só aparece nos silêncios longos...
    Belo poema.

    • Noétrico

      Honrado.
      Obrigado pelo feedback.
      ?

      • Arthur Santos

        Quero ler mais poemas seus....

        • Noétrico

          Ao que a plataforma me permitir, publicarei diariamente.

        • Arthur Santos

          Grato por ter citado o poema TABACARIA do poeta português Fernando Pessoa (no seu pseudónimo Álvaro de Campos).

          Não sou nada.
          Nunca serei nada.
          Não posso querer ser nada.
          À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

          Abraço.

          • Arthur Santos

            Aqui tem (espero que goste):

            http://arquivopessoa.net/textos/163

            • Noétrico

              Conheço bem F.P., Tabacaria é um verdadeiro mantra para mim, dentre todos os poemas que já li, sem dúvidas esse é o que mais gosto.



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