Noétrico

Disponibilidade lúcida

Há um campo invisível onde os corpos se reconhecem
antes da palavra.
Sem excesso, sem carência —
apenas disponibilidade lúcida.

Olhares atravessam sem pedir licença.
Alguns permanecem, firmes,
como quem sustenta um segredo compartilhado.
Outros sorriem e recuam,
ensaiam presença sem invadir.

Há quem se aproxime com solidez silenciosa,
testando o espaço com respeito
e curiosidade medida.
Há quem chega leve,
sem fixar, mas sem fugir,
e permanece — é o gesto mais claro de todos.

Outros trazem o olhar denso,
a tentativa de impor altura,
força, direção,
como se o desejo precisasse provar domínio
para existir.

Há também o toque brincado,
íntimo sem pressa,
que reduz a distância pelo riso
e desfaz hierarquias no detalhe mínimo.

E existe aquele vínculo antigo,
feito de negação e retorno,
de confronto contínuo,
onde a proximidade se disfarça de rivalidade
e a verdade só aparece nos silêncios longos,
sólitos.

Tudo acontece sem anúncio.
É claro.
É direto.
É vivo.

Não se trata de escolher agora,
mas de reconhecer o jogo em andamento
e a estranha, agradável certeza
de ser visto —
sem excesso,
sem máscara,
sem fuga,
como luz que pousa e não exige.