Há um gosto amargo que insiste na minha língua,
um traço de ferro, de veneno, de promessa quebrada.
Não é o sabor do pecado —
é o que fica depois que ele vai embora.
Carrego na boca o mesmo gosto que a alma exala
quando erra sabendo que está errando,
quando ama sabendo que vai ferir,
quando protege sabendo que vai morrer por isso.
É o gosto do mal —
não o mal grandioso, épico, condenado.
Mas o mal silencioso, doméstico, inevitável.
O mal que nasce quando você tenta acertar…
e destrói tudo mesmo assim.
Cada passo que eu dei para salvar alguém
me levou mais fundo ao próprio abismo.
E quanto mais eu estendia a mão,
mais percebia o sangue que escorria dos meus dedos.
Sinto falta do que nunca tive.
Sinto saudade de quem nunca pude ser.
Sinto tudo tarde demais —
e o gosto do mal me lembra disso
toda vez que respiro.
Se existe um inferno,
é este:
viver sabendo que o destino que eu lutei para evitar
foi escrito pelas minhas próprias escolhas.
E agora caminho sozinho,
com esse sabor cruel preso à boca,
como um lembrete sutil e eterno
de que, no fim,
fui vítima do mesmo mal
que tentei destruir.
-
Autor:
Adam (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 10 de janeiro de 2026 07:09
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 1

Offline)
Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.