Adam N

A Espiral Que Carrega o Gosto do Mal

Há um gosto amargo que insiste na minha língua,

um traço de ferro, de veneno, de promessa quebrada.

Não é o sabor do pecado —

é o que fica depois que ele vai embora.

 

Carrego na boca o mesmo gosto que a alma exala

quando erra sabendo que está errando,

quando ama sabendo que vai ferir,

quando protege sabendo que vai morrer por isso.

 

É o gosto do mal —

não o mal grandioso, épico, condenado.

Mas o mal silencioso, doméstico, inevitável.

O mal que nasce quando você tenta acertar…

e destrói tudo mesmo assim.

 

Cada passo que eu dei para salvar alguém

me levou mais fundo ao próprio abismo.

E quanto mais eu estendia a mão,

mais percebia o sangue que escorria dos meus dedos.

 

Sinto falta do que nunca tive.

Sinto saudade de quem nunca pude ser.

Sinto tudo tarde demais —

e o gosto do mal me lembra disso

toda vez que respiro.

 

Se existe um inferno,

é este:

viver sabendo que o destino que eu lutei para evitar

foi escrito pelas minhas próprias escolhas.

 

E agora caminho sozinho,

com esse sabor cruel preso à boca,

como um lembrete sutil e eterno

de que, no fim,

fui vítima do mesmo mal

que tentei destruir.