No fundo do mar, onde o azul é profundo
como o sonho guardado no peito do tempo,
vivia uma filha das águas, pequena e silenciosa,
com olhos de oceano e alma em movimento.
Era a mais jovem das filhas do Rei dos Mares,
leve como espuma, serena como o luar,
trazia no coração perguntas antigas
sobre viver, amar e eternizar.
Enquanto as irmãs narravam cidades e luzes,
sinos, florestas e vozes humanas,
ela escutava o mundo de cima
como quem escuta promessas distantes e profanas.
Quando o tempo lhe abriu a superfície,
o destino surgiu em forma de nau,
um príncipe à deriva entre ondas e medo,
e um amor nasceu sem jamais ser igual.
Ela o salvou no silêncio das águas,
deixou-o ao sol, entre areia e oração,
e partiu sem nome, sem gesto, sem rosto,
levando consigo o peso da paixão.
Descobriu, então, que os homens têm alma,
que o tempo neles não é o fim,
enquanto as sereias, belas e eternas,
se desfazem em espuma ao fim de si.
Movida por amor e esperança infinita,
desceu ao pântano do sacrifício cruel:
trocou sua voz canto do mar
por passos de dor e promessa de céu.
Com pernas humanas, feridas abertas,
dançou para amar, sangrou para existir,
pois cada passo era lâmina viva,
mas o coração insistia em prosseguir.
O príncipe a viu como encanto e ternura,
mas não reconheceu quem o salvara do mar,
amou outra imagem, outro destino,
sem saber quem aprendera a amar.
Quando a aurora trouxe o véu do casamento,
ofereceram-lhe a faca da volta e do perdão:
matar para viver, ferir para retornar,
ou amar até a própria dissolução.
Ela escolheu não ferir quem amava,
lançou-se ao mar, rendida ao bem,
e em vez da morte prometida,
ergueu-se em luz, mais que ninguém.
Transformou-se em filha do ar,
sílfide do vento e da bondade,
pois quem ama sem posse ou vingança
merece a eternidade.
Assim vive a Pequena Sereia na memória do mundo,
não como dor, mas como lição maior
de que a alma nasce do amor que renuncia,
e a liberdade floresce onde houve dor.
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Autor:
Ozana Anjos Santana (
Offline) - Publicado: 9 de janeiro de 2026 23:06
- Comentário do autor sobre o poema: “Voz que Virou Espuma” resume a trajetória de uma sereia que, movida pelo amor e pelo desejo de transcendência, renuncia à própria voz e suporta a dor para viver entre os humanos. Não reconhecida por quem ama, ela escolhe não ferir nem vingar-se, aceitando a dissolução como gesto final de amor. Sua transformação em filha do ar simboliza que a verdadeira eternidade nasce da renúncia, da compaixão e da fidelidade aos valores mais elevados da alma.
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 3
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Comentários1
BELO POEMA.
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