Ozana Anjos Santana

VOZ QUE VIROU ESPUMA

No fundo do mar, onde o azul é profundo
como o sonho guardado no peito do tempo,
vivia uma filha das águas, pequena e silenciosa,
com olhos de oceano e alma em movimento.

Era a mais jovem das filhas do Rei dos Mares,
leve como espuma, serena como o luar,
trazia no coração perguntas antigas
sobre viver, amar e eternizar.

Enquanto as irmãs narravam cidades e luzes,
sinos, florestas e vozes humanas,
ela escutava o mundo de cima
como quem escuta promessas distantes e profanas.

Quando o tempo lhe abriu a superfície,
o destino surgiu em forma de nau,
um príncipe à deriva entre ondas e medo,
e um amor nasceu sem jamais ser igual.

Ela o salvou no silêncio das águas,
deixou-o ao sol, entre areia e oração,
e partiu sem nome, sem gesto, sem rosto,
levando consigo o peso da paixão.

Descobriu, então, que os homens têm alma,
que o tempo neles não é o fim,
enquanto as sereias, belas e eternas,
se desfazem em espuma ao fim de si.

Movida por amor e esperança infinita,
desceu ao pântano do sacrifício cruel:
trocou sua voz  canto do mar
por passos de dor e promessa de céu.

Com pernas humanas, feridas abertas,
dançou para amar, sangrou para existir,
pois cada passo era lâmina viva,
mas o coração insistia em prosseguir.

O príncipe a viu como encanto e ternura,
mas não reconheceu quem o salvara do mar,
amou outra imagem, outro destino,
sem saber quem aprendera a amar.

Quando a aurora trouxe o véu do casamento,
ofereceram-lhe a faca da volta e do perdão:
matar para viver, ferir para retornar,
ou amar até a própria dissolução.

Ela escolheu não ferir quem amava,
lançou-se ao mar, rendida ao bem,
e em vez da morte prometida,
ergueu-se em luz, mais que ninguém.

Transformou-se em filha do ar,
sílfide do vento e da bondade,
pois quem ama sem posse ou vingança
merece a eternidade.

Assim vive a Pequena Sereia na memória do mundo,
não como dor, mas como lição maior
de que a alma nasce do amor que renuncia,
e a liberdade floresce onde houve dor.