“E aqueles que me veem dançando
me julgam insana
por não conseguirem ouvir a melodia
que a música da minha alma irradia.”
Digo isso baixinho —
não por timidez,
mas porque minhas verdades
gostam de sussurrar antes de se revelar.
Às vezes danço porque o chão é sério demais,
e meus pés, coitados,
precisam inventar pretextos
para desobedecer à gravidade.
Noutras, danço por puro desatino —
ou talvez por tino demais,
quem é que sabe?
Há dias em que a vida me pergunta:
“Você tem certeza?”
E eu respondo rodopiando,
porque minha língua tropeça em certezas,
mas meus passos sempre dizem “talvez”.
Afinal, existir não é esse baile estranho
entre o que somos
e o que suspeitamos ser?
Enquanto isso, os que me observam
olham para os meus giros como quem observa
um cometa fora do itinerário.
Sussurram diagnósticos,
catalogam mistérios,
tentam medir o invisível
com réguas retas demais.
Não os culpo.
Nem todo ouvido nasceu para perceber
a flauta tímida da dúvida,
o violino rebelde do desejo,
o tambor íntimo que pulsa no peito
só quando o mundo não está olhando.
E assim repito —
para eles, para mim, para o vento curioso:
“E aqueles que me veem dançando…”
repetindo como quem testa a própria existência
num eco suave e bem-humorado.
Talvez a verdadeira loucura
seja só essa mania de procurar sentido
onde bastaria sentir.
Talvez a sanidade seja uma valsa sem graça.
E talvez — só talvez —
o universo inteiro esteja dançando também,
mas muito envergonhado
para admitir que ouve a mesma melodia.
Por via das dúvidas,
continuo girando.
Porque a alma, essa desobediente,
tem o péssimo hábito de cantar alto
quando o silêncio se acha dono de tudo.
E se algum dia alguém entender a música,
que bom.
Se não entender…
bem, que me acompanhe assim mesmo,
no passo cambaleante
desse paradoxo delicioso
de sermos tão humanos
e ainda assim
tão inexplicáveis.
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Autor:
Bulaxa Kebrada (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 12 de dezembro de 2025 21:00
- Comentário do autor sobre o poema: Às vezes, minha alma canta tão baixo que até eu preciso chegar mais perto para ouvi-la. Não está em grandes epifanias, nem em horas solenes — esconde-se nos intervalos: no vapor do café, no susto de um sorriso inesperado, no breve silêncio entre um pensamento e outro. Quando finalmente a encontro, não é um som, mas um gesto: um pequeno aceno de retorno ao que sou. E então percebo que a melodia nunca some — apenas aguarda que eu me lembre de ouvir o que já me pertence.
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 4
- Usuários favoritos deste poema: Luana Santahelena, Sezar Kosta

Offline)
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