Luana Santahelena

Onde a Música da Minha Alma se Esconde

“E aqueles que me veem dançando

me julgam insana

por não conseguirem ouvir a melodia

que a música da minha alma irradia.”

 

Digo isso baixinho —

não por timidez,

mas porque minhas verdades

gostam de sussurrar antes de se revelar.

 

Às vezes danço porque o chão é sério demais,

e meus pés, coitados,

precisam inventar pretextos

para desobedecer à gravidade.

Noutras, danço por puro desatino —

ou talvez por tino demais,

quem é que sabe?

 

Há dias em que a vida me pergunta:

“Você tem certeza?”

E eu respondo rodopiando,

porque minha língua tropeça em certezas,

mas meus passos sempre dizem “talvez”.

Afinal, existir não é esse baile estranho

entre o que somos

e o que suspeitamos ser?

 

Enquanto isso, os que me observam

olham para os meus giros como quem observa

um cometa fora do itinerário.

Sussurram diagnósticos,

catalogam mistérios,

tentam medir o invisível

com réguas retas demais.

 

Não os culpo.

Nem todo ouvido nasceu para perceber

a flauta tímida da dúvida,

o violino rebelde do desejo,

o tambor íntimo que pulsa no peito

só quando o mundo não está olhando.

 

E assim repito —

para eles, para mim, para o vento curioso:

“E aqueles que me veem dançando…”

repetindo como quem testa a própria existência

num eco suave e bem-humorado.

 

Talvez a verdadeira loucura

seja só essa mania de procurar sentido

onde bastaria sentir.

Talvez a sanidade seja uma valsa sem graça.

E talvez — só talvez —

o universo inteiro esteja dançando também,

mas muito envergonhado

para admitir que ouve a mesma melodia.

 

Por via das dúvidas,

continuo girando.

Porque a alma, essa desobediente,

tem o péssimo hábito de cantar alto

quando o silêncio se acha dono de tudo.

 

E se algum dia alguém entender a música,

que bom.

Se não entender…

bem, que me acompanhe assim mesmo,

no passo cambaleante

desse paradoxo delicioso

de sermos tão humanos

e ainda assim

tão inexplicáveis.