Entre uma Página e Outra

Luana Santahelena

Se o cotidiano fosse um livro,

eu estaria lendo a mesma página há anos —

com anotações nas margens,

marcas de café,

e um suspiro dobrando o canto.

 

Às vezes, penso em virar a folha.

Mas a próxima parece tão em branco

que o silêncio dela me assusta.

Então, fico.

Releio o parágrafo onde esqueço as chaves,

onde o sol entra pela janela

e finge ser novidade.

 

Há um certo conforto na repetição —

como se o tempo me ninasse

com a mesma canção de sempre,

um pouco desafinada,

mas íntima.

 

Talvez viver seja isso:

aprender a reler

com outros olhos,

até descobrir que o mesmo texto

mudou de significado

enquanto eu mudava de alma.

 

E quem sabe — um dia —

quando o vento virar a página por distração,

eu sorria,

e continue a história

sem saber onde parei.

  • Autor: Bulaxa Kebrada (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 1 de novembro de 2025 13:00
  • Comentário do autor sobre o poema: Se o cotidiano fosse um livro, eu estaria lendo a mesma página há anos. No entanto, percebo que cada releitura traz uma palavra que antes me escapava, um detalhe escondido na margem, um silêncio que agora soa diferente. A página é a mesma, mas eu não sou. E talvez seja nisso que reside a beleza: descobrir que até na repetição a vida encontra novas formas de florescer.
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 54
  • Usuários favoritos deste poema: Luana Santahelena, Sezar Kosta, Poesia Abandonada, Arthur Santos, Melancolia..., Josi PMVC
Comentários +

Comentários2

  • Arthur Santos

    Poetisa Luana, não vou a ti com (meios-termos) mas a verdade é que este teu belo poema, se sente muita intensidade emocional.
    Gosto muito, continua!

  • Josi PMVC

    Nossa!!! Que lindo...fiz uma viagem dentro de mim e pude frequentar o mesmo lugar várias vezes com o olhar e o sentir diferente.



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