Minha filha acaba de adormecer nos meus braços.
O peito dela sobe e desce em uma respiração profunda.
Estranho como um som tão banal pode se transformar em companhia numa noite vazia.
Mais cedo, ao organizar o armário, encontrei um moletom dobrado.
Como pode um pedaço de tecido guardar tantas histórias?
Bastou tocá-lo e fui transportada para uma noite fria — criança no colo, bolsa no braço, receita médica na mão.
Incertezas pairavam no ar, dançando de mãos dadas com a solidão.
E, em meio a passos acelerados, respiração ofegante e coração apertado, um encontro inesperado — mas tão desejado.
“Não achei que você viria.”
“Eu não te deixaria sozinha. Pega meu moletom, está frio.”
Nesse instante, somente nesse breve instante, as dúvidas recuaram,
a solidão adormeceu
e a esperança me abraçou.
Abraço caloroso.
Protetor.
Gargalhadas contagiantes preencheram aquela noite.
Pela primeira vez, senti a completude.
Minha pequena companheira também.
Essa mesma que agora repousa serena nos meus braços.
Pergunto-me se ela sonha com aquele momento,
se sente falta como eu sinto.
Abracei mais um pouco o moletom —
herança de um encontro tão breve quanto luminoso.
Agradeci baixinho e o devolvi ao armário,
do mesmo modo como, aos poucos, tento me devolver ao meu próprio coração.
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Autor:
biancalessa_ (
Offline) - Publicado: 12 de setembro de 2025 20:36
- Comentário do autor sobre o poema: Uma crônica poética sobre memórias guardadas - mas nunca esquecidas - no fundo armário.
- Categoria: Amor
- Visualizações: 9
- Usuários favoritos deste poema: SADE, Apegaua

Offline)
Comentários2
Interessante como o moletom é personificado em meio ao cotidiano do pensamento, conta uma história insinuante e aos poucos é guardado junto com as memórias e a sensação do momento. Lindo poema, parabéns!
Você conseguiu entender perfeitamente a mensagem que eu quis passar! A ideia era mesmo trazer acontecimentos cotidianos, com um tom confessional - e por que não melancólico? - para chegar na crônica poética.
Pensei nessa estrutura com o intuito de transmitir exatamente essa sensação. Muito muito muito obrigada!
Dizem e não fui eu, que guardar memorias passadas em gaveta de armários da azar.
O passado muitas das vezes, obstrui de as coisas acontecerem no presente.
Mas o que fazer, para que as energias positivas invada.
Bom agora sou eu que esta dizendo, dar três pulinhos e invocar tudo para são longuinho.
Por acaso se não conhecer o Santo, o faço no dia de todos os Santos.
Ficar bem.
Apegaua
Dizem-se tantas coisas, que se formos seguir tudo à risca, viveremos em um eterno paradoxo. Como este: \"guardar ou não guardar?\"
Digo que concordo com o que ouvistes, pois apesar de escrever sobre o moletom guardado, prefiro abrir espaço e devolver as memórias que não mais me fazem bem. As que fazem, ocupam um lugar simbólico — no armário e no coração.
Gratidão pelo comentário!
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